Eu, percebendo-me.
Conheço verdadeiros tímidos, pessoas verdadeiramente encabuladas. O tipo que preferia ser invisível, que disfarça a própria presença de modo sistemático. Eles não têm coragem de se expor. Por isso não sentam nos cantos da sala, nem se reservam horas de silêncio, tampouco demonstram fragilidade e introspecção. De modo algum conseguem se revelar. Pelo contrário, adquirem ótimas técnicas de enclausuramento. Forçam o sorriso alheio fazendo eles próprios a maioria das piadas, assim diminui as chances de saírem com o rosto ruborizado. Procuram comunicar-se com um grande número de pessoas – principalmente aquelas que aparentam mais alegria, são mais efusivas. Precisam roubar a atenção. Com olhos fixos em lantejoulas e purpurinas, quem vai reparar em corações remendados? PRECISAM ser amados. Precisam de coisas demais, inclusive aprender a doar.
Sentem medo. Temem que se descubra que são gente com sangue e consciência, cometendo erros e fabricando máscaras. Ah, sim, sei de muitos tímidos reais. E cada vez que eu observo alguém um segundo a mais, e percebo a timidez se transformando em um câncer por detrás de sorrisos fáceis, desvio o rosto e não comento sobre aquilo. Assim percebem que seu segredo está seguro.

Estou deixando o vento soprar… ele que me mostre a direção. Que me leve aonde bem quiser.
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Voltemos ao dia em que nos sentimos pela primeira vez. Preciso chegar naquele momento novamente, repensar as bobagens ditas, feitas e pensadas. Pra marcar um encontro com o que o futuro nos presentearia. Quando olho pra trás não consigo tirar dele nem mesmo lições, foi uma sucessão de erros tão natural, então naturalmente deve ser uma saída não nos pertencermos. É só sonhar sem fundamento. Agora é momento de seguir em nossas estradas opostas, que me pareceram ser as mesmas por instantes; e mirar você como se não houvesse nada. E em realidade aconteceu tudo! Todas aquelas coisas que se predestinaram a serem nossas. Por hora é tudo desmanche. Quebrou-se o mundo feito dentro de mim. Apenas me penaliza não ter motivos pra tristeza. Ainda se afirmarem que desejo você, nego prontamente. O meu querer não desse corpo que nem me atrai, ou desse seu jeito que me faz parar meus olhos nos seus. A minha vontade era do que poderíamos ter chegado a ser.

Peguei a caneta para me desenhar no papel. Exatamente assim, sem direito a errar e começar do zero. O arrependimento corrói apenas por saber que não há como voltar no tempo. Não existe modo de olhar pra trás e recriar o que passou. E os meus vacilos tão infantis, sempre tão obviamente errados, estão agora a olhar pra mim com ares de riso. Eles brincam de me maltratar… Sabem que é fácil me iludir mostrando-se o mais certo a fazer. Eu não quero mais saber a diferença entre o que é errado e o que não é. Não preciso mais me ver no espelho e procurar quem eu sou,afinal o ser é feito do fazer. Por que escrever e poder riscar as linhas desagradáveis, se agora eu estou de frente às besteiras cometidas? O meu beco é sem saída. Fingirei que não sei de que careço. É outro dia, é outro ano. É sol ou chuva, é sempre amanhecer. Mas depois a noite vem.
Eu ouvi o som que vinha do rádio. É apenas uma música, mas eu corri pra escutar de perto, coloquei no volume máximo tão rápido quanto pude, fiquei reparando naqueles versos, prestei atenção em cada rima. Não posso esquecer, nem fingir que aquilo não me diz nada… Era a nossa música! E quanto mais eu tento ir embora, e ver você partir também, mais eu percebo que não posso. Olho para os lados e tento perceber qualquer outro som, quero me agarrar à outra mão e me livrar desse meu modo de amar você, e não consigo. Talvez seja assim o amor… um caminho sem volta, uma dádiva ou um castigo do qual não podemos nos esconder.
Pinta as unhas de vermelho e vem até aqui me ver. Menina de sorriso triste, do viver solitário, você não sabe, mas até chorando você é bonita. Eu vi você numa tarde quente, e eu quase não acreditei. O seu brilho é o das estrelas e está escondido atrás de um véu negro. Toco a sua pele, sinto que é fria e sei o que isso significa, entretanto ignoro, continuo tentando… Adivinho que tenha um raio de sol só para uso particular, guardado dentro de uma caixinha especial. É linda mesmo quando repara em mim com esse jeito de ressabiada. Queria imaginar que pensa um pouco em mim. Ou ao menos que nota que estremeço toda vez que conversamos tão próximos ao ponto de eu conseguir perceber seu hálito. Se declarasse que sofro, de nada adiantaria, tão presa está você às próprias amarguras, iria me achar um insetinho insistente zumbindo perto do seu ouvido. E se eu começasse a declarar que a vida pode ser mais bela, você pensaria em mim como um utópico inocente, e ainda assim eu sorriria – você pensou em mim. Entenda, esse seu ar sombrio, essa sua maneira de quem não se importa, não me farão esquecer. Apenas me torturarão mais. Então abre logo a porta e põe o pé na rua, vem me encontrar pra que eu conte da minha vida. Eu vou fazer nascer uma fonte de alegria sem fim.
Uma manhã minha e das minhas canções. Minha e das minhas linhas mal escritas, do meu rosto no espelho e do meu pensamento naquele alguém… O telefone tocou era uma pessoa querida, a fim de conversar bobagens. Mensagens portavam declarações que me fizeram sorrir. E por que só ele não veio me procurar? Se ele me disser que sim e me convidar para bailar com ele no nosso próprio ritmo, esqueço tudo que se foi, chamo tudo de passado. Preciso apenas do sinal. Eu mostro a ele como se faz alguém feliz, e aquilo que é confusão se tornará a certeza, e dela farei nossa alegria particular. Um sentimento só nosso, compreensível apenas ao meu coração e ao dele. “Baby, do you wanna dance?”
A moça não tinha beleza nem feiúra, ou aquele ar agradável que atrai as pessoas ao redor. De fato, falava muito pouco, apenas o nencessário ou nem mesmo isso. Ainda assim, por mais que eu tentasse não vê-la, eram suas feições resignadas tudo o que eu enxergava.
Enquanto eu observava suas ações, poucas e discretas, fui reconhecendo as marcas. Seu coração já foi despedaçado milhares de vezes, e em cada recomposição feita foram esquecidos alguns pedacinhos. As lacunas formadas são como uma armadura. A jovem faz coisas todos os dias, sempre as mesmas, sempre fundamentais, sempre sem razão. Os dias vão lhe massacrando a coragem, e a garota está tornando-se cada vez menor… Um dia eu a vi quase chorando. Lacrimejando e sem motivo aparente. Lágrimas teimavam, queriam lavar as marcas do tempo a qualquer custo, mas a mulher lutou, e ao menos dessa vez ela venceu. Mas essa foi só outra batalha.
Um dia resolvi que iria esquecer dessa maneira de ver nos olhos dela sua história inteira. Então fui passando como se pudesse fingir que o mundo é meu. Entretando a menina se mostrou uma intrometida, eu que andava tão tranquila fui interrompida de repente. A moça agrediu-me com seu leve toque em meu braço,e no mesmo instante fui inundada pela angústia, pelos olhos com jeito de abismo mirando em mim. Foi então que a ouvi falar, do mesmo jeito que se canta o verso mais triste da música… Como se quisesse me colocar no meu deivo lugar, como quem diz que o meu momento estava chegando, como se eu devesse arrepender-me do meu olhar de curiosidade e compaixão. Como se precisasse me mostrar que o tempo estava acabando, como se soubesse que assim tirava a venda da minha face… perguntou-me as horas.


